Nos últimos meses tenho lido
muitos relatos sobre partos aqui na blogosfera. Emocionei-me com a série do
relato da Lia e me arrepiei com o da Patrícia. Mas antes de falar sobre minha
nova reflexão sobre partos (até porque nem grávida estou, então por hora, isso
não vem ao caso) o post de hoje foi estimulado pelo lindo e profundo texto daAnne e pelo da Mari, que de tão verdadeiro e próximo da minha realidade, poderia
simplesmente repercuti-lo aqui.
Mas decidi falar sobre o meu
parto, que embora não tenha ressentimentos, culpa ou mágoa com o processo da
cesárea, nunca detalhei como foi a minha escolha.
Mas para falar do parto, terei
que voltar bastante ao tempo. Para uma época em que, embora idealizasse ser mãe,
nem pensava no assunto. Nessa época eu sabia que queria ser mãe, mas não queria
ter um filho. Como? Não, não que eu planejasse uma adoção. Queria engravidar,
mas o parto era um assunto muito sensível. Coisa de adolescente talvez, mas
sempre pensava quão aflitivo eram as últimas semanas de gestação.
Daí que sofri uma cirurgia de
emergência e ao voltar do centro cirúrgico, com a minha mãe a me esperar no
quarto, a primeira frase que disse ao olhar para ela foi: Não quero mais ter filhos. O medo do desconhecido havia se
transformado na certeza. Isso tudo porque sofri com a anestesia (raque).
Sábia sempre foi minha mãe, que
na hora tratou de dizer que um parto não poderia ser comparado com a minha
experiência e que com o tempo esse meu sentimento passaria. Passou. Óbvio. Mas
o medo não. Talvez por este medo eu tenha tomado à decisão errada, e isso sim
eu faço uma autocrítica, que foi a de optar pela ignorância. Só hoje avalio
assim, já que durante a gestação não tinha essa percepção.
Então que maridão e eu decidimos
que era hora de encomendarmos o baby e ele veio no mesmo mês da decisão. Opa,
já? Maravilha. Agora sim podemos falar da minha transformação e aqui não quero
dividir a culpa, até porque já disse, não tenho nenhum sentimento de frustração
pela minha cesárea, mas é que essa reflexão toda foi muito importante para eu
entender a minha decisão.
Não sei se todas lembram dessa
época, mas como eu vivenciei isto, foi muito marcante e assustador. Em meados
de 2009 (quando engravidei) estávamos passando pelo surto da Gripe Suína
(H1N1). Começou em outros países, depois chegou ao Brasil de forma controlada.
Mas de repente, eram vários casos graves, inclusive com mortes. As principais vítimas?
Crianças até 2 anos, idosos, pessoas com problemas respiratório e gestantes.
Eu comecei timidamente com os
cuidados indicados, mas aos poucos, fui sabendo de casos próximos a mim. A
esposa de um colega de trabalho do marido, grávida de 8 meses, havia sido
internada com suspeita de H1N1. Dias depois, o quadro da moça piorou, tiveram
que fazer o parto e alguns dias depois, ela faleceu. Algo muito aparecido
aconteceu com outro casal que trabalhava com meu irmão. Até que a esposa do meu
amigo (grávida de 5 semanas a mais do que eu) foi internada por conta da gripe.
Eles vivenciaram os medos dos possíveis efeitos dos remédios no bebê. Graças a
Deus ela teve alta e o bebê se manteve saudável. Mas nesta altura do
campeonato, aquele medinho do primeiro tri foi reforçado por esta epidemia. Eu
já era uma grávida neurótica que passava álcool na mão a cada segundo. Não
frequentava lugares fechados e morria de medo de encontrar pessoas. Freak
total!
Mas ninguém, além da família,
sabia da minha gravidez. Eu queria esperar um pouco mais antes de sair
anunciando. Nesta época, minha mãe, que sofria com artrite reumatoide, estava
se locomovendo com andador por conta de uma misteriosa dor na perna. Alguns
dias depois da descoberta da gravidez ela foi ao Hospital, junto com meu pai,
para ver o que estava acontecendo e descobriu um fêmur fraturado. Ela teve que
ser internada para uma cirurgia, mas como tomava medicações fortes e seus
exames acusaram um sistema imunológico frágil para assumir uma cirurgia, a
internação acabou se estendendo por dias.
Falávamos diariamente por
telefone, mas eu estava terminantemente proibida por ela de visita-la. O
Hospital em questão recebia centenas de pessoas com sintomas da gripe e o
próprio médico orientou restrição a visitas. Foi uma fase muito difícil para
mim, que estava passando por tantas transformações, tantos medos e inseguranças
e ainda tinha que me ver longe da pessoa que mais me transmitia tranquilidade e
segurança.
Foi por telefone que ela ficou
sabendo da possibilidade de ser uma menina. Comemoramos, rimos, foi divertido.
Ela ficou internada no Hospital por +- 20 dias e nesse tempo todo infringi o
seu pedido e fui vê-la. Lembro-me bem de como ela ficou brava comigo. Mas feliz
por me ver. Fez-me jurar que eu não voltaria e assim o fiz.
Completei 8 semanas de gestação e
decidi me encontrar com unas amigos para contar a novidade. Antes de sair de
casa liguei para Mama (como de costume) e a achei um pouco para baixo: Comi alguma coisa que não caiu bem, vomitei
agora, é só isso. Fui para o barzinho, com o meu fiel álcool gel, escolhi
uma mesa na parte de fora do bar, com bastante circulação de ar, onde
comemoramos a boa nova.
No dia seguinte (sábado) tínhamos
combinados de buscar nosso afilhado, mas meu pai ligou para o marido pedindo
uma ajuda que nem me lembro o que era. Então ele sugeriu me deixar em casa.
Misteriosamente eu tive um sono incontrolável e passei o sábado dormindo.
Acordei com a chegada do marido me trazendo a pior notícia da minha vida. Minha
mãe havia tido uma parada cardíaca e estava em coma. Proveniente de uma
pneumonia e uma suspeita da maldita gripe. Ele passou o dia no hospital com o
meu pai (foi esse o motivo da ligação pela manhã). Não consigo detalhar o
turbilhão de sentimentos daquele dia, mas garanto, foi horrível. Minha mãe, que
havia sido internada por um simples problema ortopédico faleceu no domingo.
Assim mesmo. Sem um adeus.
Devo dizer que desse dia em
diante eu me transformei. Virei uma pessoa que nem eu mesma me reconhecia. Eu
não queria ver ninguém, não queria falar com ninguém. Dói muito o sentimento de
órfão. Eu tinha um pai, um marido espetacular, irmãos e amigos, mas eu me
sentia sozinha. Era (e é até hoje) como se não tivesse mais ninguém no mundo
para brigar por mim.
O impacto disso na minha gestação
foi absurdo. Sabe aquele medo que eu tinha antes mesmo de saber o que era
engravidar? Voltou à tona e me tornei a pessoa mais insegura e medrosa. Eu
vivia um medo constante de perder a única coisa que me mantinha viva. Sim, eu
quis morrer e não é exagero. Mas minha filha me fazia lutar contra essa vontade,
então, não podia perdê-la. Lembro-me do medo que eu tinha de andar de carro com
qualquer outra pessoa que não fosse meu marido. Não pegava táxi, não aceitava
carona. Era um horror. Viajei de SP a BH (cerca de 6 horas durante a madrugada)
acordada com medo de que o motorista dormisse ao volante.
Passei a repetir meio que por osmose
que queria um parto normal, mas que fosse o que Deus quisesse. Não li nada além
do que tecnicamente significava cada parto. Na verdade, minha única predileção pelo
parto normal era o fato de não ter que tomar anestesia na coluna. Me limitei a entregar
na mão do destino o que fosse melhor. Típico de quem não quer assumir os riscos
de sua escolha. Terceirizei ao universo. Não me culpo e nem aceito ser julgada
por isso. Foi minha escolha e era o que tinha para o momento. Como disse a Mari,
do viciados, no texto que citei acima “Percebi que eu ‘queria querer’ o parto normal, mas não tive informação e
estrutura suficiente para querer de verdade. Não me sinto partida ao meio, nem
traída, nem enganada! Muito pelo contrário, agradeço pelas minhas cesáreas,
pois conheço a minha fragilidade e ansiedade. Parto normal não era para mim
naquele momento... “. Mari, faço das suas,
minhas palavras.
Minha única exigência era esperar até
a 40ª semana. E assim seguimos. Eu que fui uma grávida louca, do tipo
que ligava dia sim e outro também para o obstetra com as perguntas mais
descabidas (mentira, quem ligava era o marido, porque eu era louca, mas tinha
vergonha na cara). Chorei porque achei que a pomada que passei no dedinho
mindinho do pé poderia ter feito mal ao neném. Encuquei por vezes que a pequena
não se mexia, então tinha algo errado. Isso se falar na vez que cheguei a
pensar que havia quebrado o braço dela ao levantar do sofá.
Nas últimas semanas a paranoia só
aumentava e eu honestamente não sei como segui firme na exigência de esperar a
40ª semana. Com 38 semanas eu levei um leve choque na tomada, que nem me abalou
e continuei a trabalhar. Mas minutos depois, a louca que vivia em mim
despertou. A Manu não se mexeu por um bom tempo e eu comecei a me desesperar.
Ligamos para o médico e embora ele tenha acalmado o marido e feito até
brincadeira com a situação, eu não me tranquilizei enquanto não fui ao hospital
fazer o cardiotoque. E acreditem, a Manuela só acordou depois de duas
buzinadas. Ou seja, ela estava num sono profundo.
Nesse dia vi que não teria
estabilidade emocional para esperar pelos sinais da natureza. Resisti à base de
muitas neuras até completar as tais 40 semanas e então o meu médico me fez a
pergunta, que aí digo que foi minha escolha: O que você deseja para o seu
parto? Ele não me pressionou nem me enganou, mas disse que se eu decidisse
esperar, teríamos que acompanhar mais de perto o bebê. Eu desejo que ela nasça bem, seja como for, mas não estou preparada
para esperar mais do que isso.
E assim agendamos o nascimento da
Manuela, que escolhi com muito orgulho o dia 19, tal como eu e minha mãe. E não
me envergonho em dizer que curti cada momento. Para mim foi tudo ótimo. Ela
mamou assim que nasceu, subi em menos de 2 horas para o quarto e daí em diante
foi só paixão.
A maternidade ativa é minha busca
e sei que ainda tenho um longo caminho a trilhar. Então, bora lá!
Obrigada pela
paciência e desculpe a extensão do desabafo. Mas foi importante fazer essa
análise, mesmo sendo difícil abordar e relembrar alguns sentimentos.











6 pitacos:
Dê, adorei saber um pouco mais da sua história. Todos nós temos os nossos porquês para as decisões que tomamos na vida e é muito cruel a mania que algumas pessoas tem de julgar. Cada um sabe onde o calo aperta.
Beijos!
Nossa manica. Que vida louca não..tantas coisas acontecem e tão inesperadas...até me vi aí no meio do seu relato pois tb passei o desespero de estar com pneumonia suína...isolada...sem poder ver ninguém...justamente naquela época e naquele ano de tantas emoções..tanto pra mim qto pra vc...principalmente em relação a sua mãe...até hoje não consigo falar sobre isso!! Deus age mesmo de forma misteriosa e sempre sábia quero crer! Mas enfim..tb acho que ninguem deve jamais julgar a escolha de alguem...só nós mesmos sabemos dos nossos sentimentos...fragilidades...sensibilidades e paranóias...certamente..a decisão ou decisões que tomou...foram as melhores para aquele momento. Sem culpas e sem ressentimentos. Me orgulho de vc e vc tem meu apoio em qualquer situação. 100%.
dé, querida, que barra!
vc está certa em não cultivar culpas ressentimentos e mágoas por causa disso. é incrível como vivemos num sistema sacana. se você estivesse em outro país não haveria esta "escolha" porque as cesáreas são feitas por indicação médica (REAL, CLARO!). no seu caso, tinha todo um contexto que prejudicou. vou ser clichê: o que importa é estar com sua filha hoje, saudável, crescendo, sorrindo. e mais: o que importa é estar disposta a construir novas verdades, novos conceitos e novas atitudes. é um mundo de reflexão que rola quando tanta gente boa se encontra com autenticidade e bons exemplos!
beijoca
Amiga, fiquei sem palavras, apenas com os olhos cheios de lágrimas...
Depois falamos pelo SKYPE.
Bjs,
Obrigada meninas. Foi muito difícil escrever este post, mas muito libertador.
Obrigada pelo carinho!
Dê, só hoje pude ler com mais calma seu relato sobre o parto. Me emocionei muito com tudo que li...
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