terça-feira, 4 de outubro de 2011

Também vou falar sobre...meu parto!


Nos últimos meses tenho lido muitos relatos sobre partos aqui na blogosfera. Emocionei-me com a série do relato da Lia e me arrepiei com o da Patrícia. Mas antes de falar sobre minha nova reflexão sobre partos (até porque nem grávida estou, então por hora, isso não vem ao caso) o post de hoje foi estimulado pelo lindo e profundo texto daAnne e pelo da Mari, que de tão verdadeiro e próximo da minha realidade, poderia simplesmente repercuti-lo aqui.

Mas decidi falar sobre o meu parto, que embora não tenha ressentimentos, culpa ou mágoa com o processo da cesárea, nunca detalhei como foi a minha escolha.

Mas para falar do parto, terei que voltar bastante ao tempo. Para uma época em que, embora idealizasse ser mãe, nem pensava no assunto. Nessa época eu sabia que queria ser mãe, mas não queria ter um filho. Como? Não, não que eu planejasse uma adoção. Queria engravidar, mas o parto era um assunto muito sensível. Coisa de adolescente talvez, mas sempre pensava quão aflitivo eram as últimas semanas de gestação.

Daí que sofri uma cirurgia de emergência e ao voltar do centro cirúrgico, com a minha mãe a me esperar no quarto, a primeira frase que disse ao olhar para ela foi: Não quero mais ter filhos. O medo do desconhecido havia se transformado na certeza. Isso tudo porque sofri com a anestesia (raque).

Sábia sempre foi minha mãe, que na hora tratou de dizer que um parto não poderia ser comparado com a minha experiência e que com o tempo esse meu sentimento passaria. Passou. Óbvio. Mas o medo não. Talvez por este medo eu tenha tomado à decisão errada, e isso sim eu faço uma autocrítica, que foi a de optar pela ignorância. Só hoje avalio assim, já que durante a gestação não tinha essa percepção.

Então que maridão e eu decidimos que era hora de encomendarmos o baby e ele veio no mesmo mês da decisão. Opa, já? Maravilha. Agora sim podemos falar da minha transformação e aqui não quero dividir a culpa, até porque já disse, não tenho nenhum sentimento de frustração pela minha cesárea, mas é que essa reflexão toda foi muito importante para eu entender a minha decisão.

Não sei se todas lembram dessa época, mas como eu vivenciei isto, foi muito marcante e assustador. Em meados de 2009 (quando engravidei) estávamos passando pelo surto da Gripe Suína (H1N1). Começou em outros países, depois chegou ao Brasil de forma controlada. Mas de repente, eram vários casos graves, inclusive com mortes. As principais vítimas? Crianças até 2 anos, idosos, pessoas com problemas respiratório e gestantes.

Eu comecei timidamente com os cuidados indicados, mas aos poucos, fui sabendo de casos próximos a mim. A esposa de um colega de trabalho do marido, grávida de 8 meses, havia sido internada com suspeita de H1N1. Dias depois, o quadro da moça piorou, tiveram que fazer o parto e alguns dias depois, ela faleceu. Algo muito aparecido aconteceu com outro casal que trabalhava com meu irmão. Até que a esposa do meu amigo (grávida de 5 semanas a mais do que eu) foi internada por conta da gripe. Eles vivenciaram os medos dos possíveis efeitos dos remédios no bebê. Graças a Deus ela teve alta e o bebê se manteve saudável. Mas nesta altura do campeonato, aquele medinho do primeiro tri foi reforçado por esta epidemia. Eu já era uma grávida neurótica que passava álcool na mão a cada segundo. Não frequentava lugares fechados e morria de medo de encontrar pessoas. Freak total!

Mas ninguém, além da família, sabia da minha gravidez. Eu queria esperar um pouco mais antes de sair anunciando. Nesta época, minha mãe, que sofria com artrite reumatoide, estava se locomovendo com andador por conta de uma misteriosa dor na perna. Alguns dias depois da descoberta da gravidez ela foi ao Hospital, junto com meu pai, para ver o que estava acontecendo e descobriu um fêmur fraturado. Ela teve que ser internada para uma cirurgia, mas como tomava medicações fortes e seus exames acusaram um sistema imunológico frágil para assumir uma cirurgia, a internação acabou se estendendo por dias.

Falávamos diariamente por telefone, mas eu estava terminantemente proibida por ela de visita-la. O Hospital em questão recebia centenas de pessoas com sintomas da gripe e o próprio médico orientou restrição a visitas. Foi uma fase muito difícil para mim, que estava passando por tantas transformações, tantos medos e inseguranças e ainda tinha que me ver longe da pessoa que mais me transmitia tranquilidade e segurança.
Foi por telefone que ela ficou sabendo da possibilidade de ser uma menina. Comemoramos, rimos, foi divertido. Ela ficou internada no Hospital por +- 20 dias e nesse tempo todo infringi o seu pedido e fui vê-la. Lembro-me bem de como ela ficou brava comigo. Mas feliz por me ver. Fez-me jurar que eu não voltaria e assim o fiz.

Completei 8 semanas de gestação e decidi me encontrar com unas amigos para contar a novidade. Antes de sair de casa liguei para Mama (como de costume) e a achei um pouco para baixo: Comi alguma coisa que não caiu bem, vomitei agora, é só isso. Fui para o barzinho, com o meu fiel álcool gel, escolhi uma mesa na parte de fora do bar, com bastante circulação de ar, onde comemoramos a boa nova.

No dia seguinte (sábado) tínhamos combinados de buscar nosso afilhado, mas meu pai ligou para o marido pedindo uma ajuda que nem me lembro o que era. Então ele sugeriu me deixar em casa. Misteriosamente eu tive um sono incontrolável e passei o sábado dormindo. Acordei com a chegada do marido me trazendo a pior notícia da minha vida. Minha mãe havia tido uma parada cardíaca e estava em coma. Proveniente de uma pneumonia e uma suspeita da maldita gripe. Ele passou o dia no hospital com o meu pai (foi esse o motivo da ligação pela manhã). Não consigo detalhar o turbilhão de sentimentos daquele dia, mas garanto, foi horrível. Minha mãe, que havia sido internada por um simples problema ortopédico faleceu no domingo. Assim mesmo. Sem um adeus.

Devo dizer que desse dia em diante eu me transformei. Virei uma pessoa que nem eu mesma me reconhecia. Eu não queria ver ninguém, não queria falar com ninguém. Dói muito o sentimento de órfão. Eu tinha um pai, um marido espetacular, irmãos e amigos, mas eu me sentia sozinha. Era (e é até hoje) como se não tivesse mais ninguém no mundo para brigar por mim.

O impacto disso na minha gestação foi absurdo. Sabe aquele medo que eu tinha antes mesmo de saber o que era engravidar? Voltou à tona e me tornei a pessoa mais insegura e medrosa. Eu vivia um medo constante de perder a única coisa que me mantinha viva. Sim, eu quis morrer e não é exagero. Mas minha filha me fazia lutar contra essa vontade, então, não podia perdê-la. Lembro-me do medo que eu tinha de andar de carro com qualquer outra pessoa que não fosse meu marido. Não pegava táxi, não aceitava carona. Era um horror. Viajei de SP a BH (cerca de 6 horas durante a madrugada) acordada com medo de que o motorista dormisse ao volante.

Passei a repetir meio que por osmose que queria um parto normal, mas que fosse o que Deus quisesse. Não li nada além do que tecnicamente significava cada parto. Na verdade, minha única predileção pelo parto normal era o fato de não ter que tomar anestesia na coluna. Me limitei a entregar na mão do destino o que fosse melhor. Típico de quem não quer assumir os riscos de sua escolha. Terceirizei ao universo. Não me culpo e nem aceito ser julgada por isso. Foi minha escolha e era o que tinha para o momento. Como disse a Mari, do viciados, no texto que citei acima Percebi que eu ‘queria querer’ o parto normal, mas não tive informação e estrutura suficiente para querer de verdade. Não me sinto partida ao meio, nem traída, nem enganada! Muito pelo contrário, agradeço pelas minhas cesáreas, pois conheço a minha fragilidade e ansiedade. Parto normal não era para mim naquele momento... “. Mari, faço das suas, minhas palavras.

Minha única exigência era esperar até a 40ª semana. E assim seguimos. Eu que fui uma grávida louca, do tipo que ligava dia sim e outro também para o obstetra com as perguntas mais descabidas (mentira, quem ligava era o marido, porque eu era louca, mas tinha vergonha na cara). Chorei porque achei que a pomada que passei no dedinho mindinho do pé poderia ter feito mal ao neném. Encuquei por vezes que a pequena não se mexia, então tinha algo errado. Isso se falar na vez que cheguei a pensar que havia quebrado o braço dela ao levantar do sofá.

Nas últimas semanas a paranoia só aumentava e eu honestamente não sei como segui firme na exigência de esperar a 40ª semana. Com 38 semanas eu levei um leve choque na tomada, que nem me abalou e continuei a trabalhar. Mas minutos depois, a louca que vivia em mim despertou. A Manu não se mexeu por um bom tempo e eu comecei a me desesperar. Ligamos para o médico e embora ele tenha acalmado o marido e feito até brincadeira com a situação, eu não me tranquilizei enquanto não fui ao hospital fazer o cardiotoque. E acreditem, a Manuela só acordou depois de duas buzinadas. Ou seja, ela estava num sono profundo.
Nesse dia vi que não teria estabilidade emocional para esperar pelos sinais da natureza. Resisti à base de muitas neuras até completar as tais 40 semanas e então o meu médico me fez a pergunta, que aí digo que foi minha escolha: O que você deseja para o seu parto? Ele não me pressionou nem me enganou, mas disse que se eu decidisse esperar, teríamos que acompanhar mais de perto o bebê. Eu desejo que ela nasça bem, seja como for, mas não estou preparada para esperar mais do que isso.

E assim agendamos o nascimento da Manuela, que escolhi com muito orgulho o dia 19, tal como eu e minha mãe. E não me envergonho em dizer que curti cada momento. Para mim foi tudo ótimo. Ela mamou assim que nasceu, subi em menos de 2 horas para o quarto e daí em diante foi só paixão.

Mas não faço apologia à cesárea. Ao contrário, hoje sei (com conhecimento e muita informação) que o parto normal é o mais indicado. Como disse, lendo alguns blogs, hoje já me sinto uma pessoa um pouco ativa, mais reflexiva, crítica. Pelo menos com desejo de me informar, de conhecer e me preparar para uma nova experiência. Não sei se tenho condições financeiras e psicológicas de assumir um parto domiciliar, mas já vejo essa decisão com outros olhos. Com certeza a maternidade me trouxe lucidez e desejo de buscar pelas melhores alternativas.
A maternidade ativa é minha busca e sei que ainda tenho um longo caminho a trilhar. Então, bora lá!

Obrigada pela paciência e desculpe a extensão do desabafo. Mas foi importante fazer essa análise, mesmo sendo difícil abordar e relembrar alguns sentimentos.


6 pitacos:

Val disse...

Dê, adorei saber um pouco mais da sua história. Todos nós temos os nossos porquês para as decisões que tomamos na vida e é muito cruel a mania que algumas pessoas tem de julgar. Cada um sabe onde o calo aperta.

Beijos!

Deca Orlando disse...

Nossa manica. Que vida louca não..tantas coisas acontecem e tão inesperadas...até me vi aí no meio do seu relato pois tb passei o desespero de estar com pneumonia suína...isolada...sem poder ver ninguém...justamente naquela época e naquele ano de tantas emoções..tanto pra mim qto pra vc...principalmente em relação a sua mãe...até hoje não consigo falar sobre isso!! Deus age mesmo de forma misteriosa e sempre sábia quero crer! Mas enfim..tb acho que ninguem deve jamais julgar a escolha de alguem...só nós mesmos sabemos dos nossos sentimentos...fragilidades...sensibilidades e paranóias...certamente..a decisão ou decisões que tomou...foram as melhores para aquele momento. Sem culpas e sem ressentimentos. Me orgulho de vc e vc tem meu apoio em qualquer situação. 100%.

Mariana - viciados em colo disse...

dé, querida, que barra!
vc está certa em não cultivar culpas ressentimentos e mágoas por causa disso. é incrível como vivemos num sistema sacana. se você estivesse em outro país não haveria esta "escolha" porque as cesáreas são feitas por indicação médica (REAL, CLARO!). no seu caso, tinha todo um contexto que prejudicou. vou ser clichê: o que importa é estar com sua filha hoje, saudável, crescendo, sorrindo. e mais: o que importa é estar disposta a construir novas verdades, novos conceitos e novas atitudes. é um mundo de reflexão que rola quando tanta gente boa se encontra com autenticidade e bons exemplos!
beijoca

Elaine disse...

Amiga, fiquei sem palavras, apenas com os olhos cheios de lágrimas...
Depois falamos pelo SKYPE.
Bjs,

Dê Freitas disse...

Obrigada meninas. Foi muito difícil escrever este post, mas muito libertador.

Obrigada pelo carinho!

Lilian Amorim disse...

Dê, só hoje pude ler com mais calma seu relato sobre o parto. Me emocionei muito com tudo que li...

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